quarta-feira, 20 de setembro de 2017


Em 26 de agosto último, o presidente do Conselho Nacional de Cineclubes divulgou uma curta nota definindo a postura da entidade na preparação da assembleia geral da entidade, voltada para a eleição de uma nova diretoria. Destaco o trecho:  " diante de um cenário político nacional desfavorável ao financiamento público de atividades culturais, evidencia-se a necessidade da realização de um único encontro que venha a promover as eleições de uma nova diretoria para o próximo biênio da entidade." Para tanto, um encontro será realizado em São Paulo, em dois meses (10 a 12 de novembro). Nos dias subsequentes, algumas figuras ligadas ao cineclubismo manifestaram-se a respeito, sempre em apoio a esse processo que estende a vida da entidade.

É o que comento aqui, pensando numa perspectiva mais ampla:

A enésima Jornada
(ou como fazer uma Jornada Nacional de Cineclubes)

O CNC, essa quimera...

Minha intenção não é faltar ao respeito, ofender ou culpar, responsabilizar quem quer que seja, ao nível pessoal, pela situação existente. No entanto, salta aos olhos. E parece que ninguém vê. A partir de 2012, portanto há meia década, um grupo relativamente grande (entre 30 e 50 pessoas), mas que não representa em absoluto, nem de longe, a realidade dos cineclubes e entidades congêneres do Brasil, reúne-se a intervalos de um pouco mais de dois anos cada, para eleger a diretoria do Conselho Nacional de Cineclubes. Não são as mesmas pessoas; uma parte delas, vinda de vários estados, repete-se, é verdade – mas não é um grupo, estritamente, porque não têm maiores afinidades de qualquer tipo –, e algumas há muito mais tempo que o período citado. Estas são as que têm uma mistura de compromisso ético-político com o que compreendem – cada um à sua maneira – como cineclubismo e o que parece uma postura de atração pelo poder, ou melhor pelo prestígio, pelo status que em certas instâncias exala dessa sigla, CNC; dessa espécie de mito que apela mais para a imaginação do que para a realidade. Outra parte, variável, que se substitui periodicamente, é constituída pela esfera dos atingidos exatamente pela ressonância desse mito: são os que mais ou menos recentemente tomaram conhecimento da ideia de movimento, de representação coletiva do trabalho que fazem de alguma maneira em suas bases locais: apaixonam-se pelo cineclubismo – que também entre eles não é uma concepção unívoca - e querem participar, ajudar – sem realmente aprofundarem muito sua compreensão das circunstâncias ou da história. Algumas figuras amalgamam os dois tipos. E, claro, há uma ou outra exceção a tudo isso.

Será a terceira vez. Aconteceu em 2013,  depois de uma primeira gestão improdutiva, iniciada em 2010; repetiu-se em 2015 e agora tenta-se fazer o mesmo ainda em 2017 ou, quem sabe, um pouco depois. E o que acontece? Com muita dificuldade talvez se faça um encontro de no máximo uns 30 grupos ligados de alguma forma ao cineclubismo, um bom número deles sem atividade real, onde se elege uma enorme diretoria, cheia de cargos e de suplentes, com quase o mesmo número de diretores que o das pessoas/entidades presentes. Aí passam-se mais dois anos sem que nada aconteça. A “diretoria” começa no maior pique, fazendo reuniões por skype ou mecanismo equivalente e propondo grandes ideias e muitas reformulações. Mas, como o governo não dá dinheiro, nada acontece e, poucos meses depois, já são uns poucos gatos pingados a pretender representar a tal instituição nacional. Um pouco mais e praticamente cessa qualquer “atividade”, que afinal nunca passou de um mero exercício de imaginação e boa vontade. Aí, findos os tais dois anos (duração do mandato, nos estatutos do CNC), alguém conclama o povo a se reunir e os “de sempre”, junto com mais alguns que aproveitam o embalo, assim como os novos apaixonados que ficam sabendo, todos que citei mais acima, fazem tudo igual de novo.

Será que não dá para ver isso? O único objetivo real desse CNC – ao que parece, de forma mais inconsciente que proposital – acaba por se limitar a fazer um encontro a cada dois anos, unicamente para se reproduzir. Como ele não existe de fato, e nada mais consegue realizar senão esse parto muito induzido, organizar o tal encontro é uma grande dificuldade: às vezes excede bastante os tais dois anos. E acaba reunindo um número menor e muito menos representativo que o universo cineclubista real. É um círculo vicioso: encontro improvisado, eleição sem representatividade, entidade sem força orgânica – sem reconhecimento institucional, político ou social - e ação nenhuma. E tudo pretende recomeçar.

Isso não é obra de pessoas maldosas, ou simplesmente interessadas em ostentar o duvidoso título de “diretor de alguma coisa” (pero que las hay, las hay). Boa parte dos que conseguem participar do tal encontro, com destaque para os que não estiveram nas diretorias anteriores, entram nessa com a maior boa vontade e empenho. Mas, ao que também parece, estão mais ou menos contaminadas pela ilusão e pelo vício herdados das administrações Lula e Dilma – e de lideranças com elas comprometidas de diferentes formas -, de que só é possível se organizar se houver ajuda financeira do governo. É um paradoxo, não? O povo, o público – que os cineclubes supostamente representam de alguma forma - só consegue se organizar se o governo ajudar (isto é, se o governo quiser)? Se já não funcionou com o governo anterior, imaginem com Temer, o espúrio. Melhor juntar mais dois anos e tentar em 2020. Ou pior, se o Messias não voltar: um quadro bem possível é o de uma consolidação liberal-conservadora nos próximos anos; nos quais a cultura, sobretudo a de base comunitária e popular, não terá vez.

Origem da inércia

Não é óbvio que não é por aí? Que os movimentos populares (e o cineclubismo é um deles) têm de se organizar com seus próprios meios, criar seu próprio espaço político, baseado em legitimidade e força alicerçadas nas comunidades? Acredito que as dificuldades, a inoperância e a consequente desorganização mais ou menos generalizada (há exceções, claro) do movimento cineclubista, isto é, dos cineclubes unidos como movimento sócio-cultural, deve-se muito mais a uma concepção - na verdade mais uma incompreensão -, a uma avaliação equivocada, do que a uma fraqueza qualquer de natureza endógena. Desde minha demissão da direção do CNC, no início da gestão 2008-2010 (cf.: http://felipemacedocineclubes.blogspot.ca/2009/08/demissao-amigs-companheirs.html) tenho escrito análises e formulado propostas, na lista de discussão dos cineclubes e no blogue citado, para tentar superar o fenômeno que penso estar na origem dessa “incompreensão” e levantar bases de discussão de um programa de reorganização do movimento cineclubista brasileiro. 

Acredito que minhas análises, grosso modo, mostraram-se corretas. Muito resumidamente, aquele momento – início de 2009 – marcou a capitulação do movimento, institucionalmente através do CNC,  a uma orientação liberal aninhada no governo – um paradoxo (pensarão alguns) apenas aparente -  que se ajuntou bem ao estilo estatizantedo  ministério da Cultura. Posteriormente, no período que vai até a Jornada de 2010, em Moreno (PE), essa relação se transformou em dependência, e numa verdadeira promiscuidade, misturando lideranças com benefícios e vantagens, uma espécie de versão cineclubista das relações que predominam nos ambientes parlamentares, que todos conhecemos. O “movimento”, leia-se o CNC de então e a maioria das lideranças regionais, aderiu e promoveu de tal forma essa proximidade com o governo que instaurou-se até um culto a certas personalidades governamentais. A própria FICC (Federação Internacional de Cineclubes), que reuniu sua assembleia geral paralelamente àquela Jornada, foi contaminada, e manifestou-se publicamente em favor de um “candidato”[i] informal à sucessão ministerial na época! O movimento cineclubista, mesmo reunido em assembleia nacional – a mais rica, mais bem financiada de todos os tempos, com os delegados contemplados com passagens aéreas (e a imensa maioria ausente dos trabalhos, nas praias de Pernambuco) – nada reivindicava, nada criticava: suas manifestações eram, no máximo, pela defesa irrestrita e pela reprodução totalmente acrítica dos programas e mesmo, como vimos, dos responsáveis governamentais. Na verdade, esses benefícios, em sua maioria, se constituíam em magros incentivos[ii] (equipamentos bem básicos de projeção, com custo pelo menos 10 vezes inferior aos recursos alocados pelo mesmo ministério para qualquer das produções digitais mais baratas, por exemplo) que duraram apenas cerca de dois anos. A Programadora Brasil – base de conteúdos criada no mesmo programa geral de formação de plateias para a produção amadora de vídeos, altamente burocratizada e seletiva, sem participação cineclubista – durou o mesmo tempo.

          Moreno marca o encerramento de todo um período histórico, que vai da reorganização conflituosa do cineclubismo brasileiro, em 2004, até 2010, com o atrelamento ao governo e a realização da última Jornada regulamentarmente organizada e a eleição de sua última diretoria legítima, para o período 2010-2012. Mas marca também o fim do precário e efêmero apoio/dirigismo federal – que por sua vez influenciava muito os programas estaduais, onde os havia – e a rápida falência não apenas dos programas como Cine+Cultura e Programadora Brasil, mas também das muitas centenas (o governo federal alardeava alguns milhares, em 682 municípios – e previa triplicar o número de cidades até 2020[iii]) de cines+ ou cineclubes criados pelo governo, denominação que depende da perspectiva de quem os mencionava. A artificialidade da iniciativa ficou comprovada pela história[iv]. A herança desses anos é essa ideologia da benesse estatal e a pasmaceira diante dos desafios da praxis cultural do audiovisual comunitário no Brasil.

Esse quadro não deve excluir, claro, diversos outros fatores que contribuem para uma desorganização mais ou menos generalizada dos movimentos sociais e até uma certa apatia da população em geral com os abusos à democracia e especialmente aos direitos trabalhistas, que sequer se limita ao Brasil. Minha avaliação, contudo, quis sobretudo aprofundar a especificidade do fenômeno no movimento cineclubista em nosso País.

O desafio da reorganização

A gestão 2010-2012, praticamente inócua, foi a primeira vítima dessa herança e o início do que configura o atual período histórico (2011-?). Não conseguindo encerrar seu mandato com a devida assembleia, a instituição nacional do movimento cineclubista deixou de existir legal e politicamente. Mas, entre representantes do período anterior e personalidades do tipo que descrevi no começo deste texto, organizou-se uma “Jornada” pouco mais de um ano depois, em meados de 2013[v]. Ali se caracteriza o modelo que buscará se reproduzir até agora, como também já abordei. Ética e legalmente, o CNC que se constituiu desde então não pode ser reconhecido. Não obedece às normas democráticas de qualificação dos participantes, de convocação e de instauração da assembleia geral do cineclubismo brasileiro. Isso, sem mencionar sua ilegalidade formal, jurídica. Se politicamente podemos lhe reconhecer alguma representatividade, ela está ligada apenas ao relativamente pequeno e incaracterístico grupo que reúne, e não pode nunca ser confundido com a totalidade dos cineclubes do Brasil, que seguem sua vida como podem. Poderíamos dizer que esse CNC marca também, de alguma forma – desde sua constituição em 2013 – o fim da unicidade representativa do cineclubismo brasileiro e o início de uma pluralidade que, aliás, existe em movimentos cineclubistas de alguns outros países[vi]. Como não é mais uma legítima entidade nacional, mas representa de alguma forma o grupo de pessoas/entidades que o coonestam, reconhecem, e dele participam - mesmo que de forma virtual, abstrata -, o CNC é hoje uma organização “a mais”, dentre outras potencialmente possíveis, de grupos vários que se possam constituir. Seja dito de passagem que a própria Federação Internacional de Cineclubes encontra-se em situação mais ou menos comparável, uma vez que sua direção, coincidentemente presidida por um brasileiro, também entrou na ilegalidade formal desde o início de 2015, adotando um mecanismo semelhante para se perenizar.

Em O Partido Cineclubista – O que fazer?, de setembro de 2016, abordo os desafios mais gerais que se colocam para o cineclube, diante não apenas dessa desorganização nacional do movimento, mas também da implantação do ilegítimo governo Michel Temer e possível continuidade liberal-conservadora e, finalmente, em vista da revolução tecnológica que influencia profundamente as relações entre a produção audiovisual e o público. Em O cineclube contemporâneo, de outubro de 2015, formulo propostas bem detalhadas de organização do cineclube tal como deve, a meu ver, se constituir e enraizar dentro das comunidades brasileiras, ao mesmo tempo aproveitando a larga experiência histórica do cineclubismo e transformando-a profundamente, em função justamente desses novos desafios. Os dois textos estão também disponíveis no blogue https://felipemacedocineclubes.blogspot.ca. Em outros artigos, Teses para uma Jornada de cineclubes e entidades congêneres (julho, 2015) e Fique são (fevereiro de 2013) – igualmente no blogue citado –, escritos por ocasião dessas falsas jornadas a que me referi, sugeri que os envolvidos na precária organização desses encontros assumissem essa condição de maneira propositiva, tornando-os em um encontro sem representatividade formal mas que poderia se articular para, com o devido tempo e preparação, organizar uma ampla e democrática assembleia que, aí sim, se constituíria como uma verdadeira Jornada Nacional de Cineclubes e teria representatividade para decidir e eventualmente reorganizar institucionalmente o CNC - como, aliás, já aconteceu três vezes em nossa história, contando com a fundação da entidade: em 1961, 1974 e 2004. Pelo menos as duas úlimas, de que participei intensamente, tiveram mais de um ano de discussão e preparação antes de se reunirem efetivamente.

Como fazer uma Jornada

          O subtítulo é mais provocativo que pretensioso de fato. Toda a minha pretensão resume-se em tentar interpretar a experiência adquirida da história do movimento e do aprendizado pessoal que construí atuando na preparação e organização de mais de uma dúzia dentre as 18 jornadas de que participei em 45 anos de militância cineclubista. Não pretendo ensinar ninguém a fazer uma Jornada, mas recuperar uma experiência coletiva bastante repetida e testada que, à luz da análise aqui desenvolvida, pode contribuir para um caminho mais democrático e mais produtivo para o cineclubismo brasileiro hoje. E, sobretudo, de maneira livre e independente. Creio que tal experiência pode ser resumida, para facilitar a leitura, em alguns pontos, sugestões que passo a elencar:

1.    Reunião: Esse encontro proposto pelo presidente do CNC deve ser encarado como um reunião não representativa e tomado como base inicial de organização de uma ampla assembleia digamos, em 13 ou 14 meses, considerando que essa reunião agora se dê em dezembro. Se, mais uma vez, esta proposta for ignorada e o encontro eleger uma nova diretoria do CNC, qualquer outro grupo de cineclubistas compromissados com uma verdadeira reorganização do movimento deveria assumir essa responsabilidade e organizar uma Reunião Preparatória para uma Jornada Nacional de Cineclubes. Passo a usar o termo Reunião para ambas as alternativas.

2.    Pauta:A pauta dessa Reunião deve ser: a) local da Jornada; b) data da Jornada; c) sugestão de pauta para temário da Jornada, a ser discutida durante o período que a antecede, prioritariamente através da lista cncdialogo, e eventual e complementarmente, por outros meios que se aprovem (por exemplo, página especial no Facebook ou coisa equivalente – mas sempre em complemento à cncdialogo),d) local e data da Pré-Jornada, a ser realizada 6 meses antes da Jornada; e) constituição de uma Comissão Organizadora da Jornada enxuta, com representantes dos cineclubes das cidades escolhidas para a Jornada e Pré-Jornada e outras pessoas que possam efetivamente contribuir física e logisticamente para a organização dos dois encontros – a Comissão não deve exceder 10 ou 12 pessoas/cineclubes {cabe uma exceção: a cidade sede pode ter mais de um representante na Comissão, em função de responsabilidades bem definidas – e sem ultrapassar 1/3 (um terço) dos membros da Comissão}.
A Comissão Organizadora da Jornada tem a função exclusiva de organizar a Jornada, não se constituindo como uma forma de representação mais ampla, não lhe cabendo se manifestar em nome dos cineclubes brasileiros sobre qualquer outro assunto.

3.    Pré-Jornada: A Pré-Jornada é uma reunião da Comissão Organizadora (e convidados, sem voto, que tenham surgido no período por envolvimento direto com a organização prática da Jornada) que deve se realizar em torno de 6 meses antes da Jornada para deliberar, de acordo com o desenvolvimento das discussões abertas de todos os cineclubes do País, uma proposta de programa (organização de horários, plenárias, grupos de discussão, eventos especiais) e temário (conjunto dos assuntos a serem debatidos), que serão discutidos a partir dessa data até (cerca de 6 meses depois) a plenária inicial da Jornada, instância soberana que aprovará definitivamente o programa e o temário a ser discutido durante a assembleia.

4.    Data: a Jornada deve ser realizada no período de férias escolares (janeiro, fevereiro ou julho) de forma a ser bem acessível aos jovens – parte significativa do movimento – e a outros segmentos. Realizar em época de provas, por exemplo, ou durante o ano letivo, certamente compromete a participação. Uma boa solução é realizar a Jornada no começo do ano e a Pré-Jornada em julho, ou inversamente.

5.    Local: a Jornada deve ser realizada em uma cidade não turística, sem praias ou outros atrativos que possam de alguma forma esvaziar os trabalhos. Na atual conjuntura, penso que a cidade não deve ser de difícil acesso, isto é, deve ser bem servida pelos sistemas mais baratos de locomoção. A cidade que a acolher deve ter uma infraestrutura capaz de receber (alojar e alimentar) de 200 a 500 pessoas (uma avaliação mais precisa pode ser feita durante o processo nacional de discussão e com uma pré-inscrição mais extensa – mas que não seja muito rigorosamente impeditiva). O ideal é que um cineclube faça antes da Reunião as negociações e tratativas com as instituições municipais e outras que assegurarão a realização local e que venha com uma proposta consolidada, comprovada e detalhada (alojamento, alimentação, transporte local, locais de reunião – para grupos e assembleias -, eventos, etc) para apresentar à decisão da Reunião – ou, se não tiver sido o caso, à Pré-Jornada. Sem esta posição inicial bem resolvida[vii] pelo menos seis meses antes, não há como se organizar uma Jornada, que deverá ser postergada até resolução dessa questão. Aqui não cabe amadorismo (no mau sentido) nem irresponsabilidade.
No entanto, num país com quase 6 mil municípios, dos quais pelo menos uns mil têm as características necessárias para acolher uma Jornada (e nos quais se encontra a grande maioria dos cineclubes mais organizados e atuantes), essa tarefa não é tão difícil quanto parece. Claro, isso depende muito da força política e da inserção do cineclube proponente em sua comunidade: daí deriva sua capacidade, senão sua habilidade de negociar com os parceiros necessários para essa empreitada.
Considerando a situação política desfavorável no plano federal e o desinteresse costumeiro das empresas em geral com o cineclubismo, deve-se procurar o apoio de instituições locais: prefeituras progressistas ou interessadas na promoção institucional da cidade, instituições culturais e educativas (unidades do Sesc e outras estruturas semelhantes, universidades, colégios, conventos, etc) e organizações populares (sindicatos, MST, etc). Uma prefeitura, usando sua própria estrutura de serviços (alojamento em escolas nas férias, colchões da Defesa Civil, alimentação da Merenda Escolar, ônibus escolares para transporte local, etc) pode certamente receber algumas centenas de cineclubistas num evento que projetará politicamente o renome da cidade. Mas muitas jornadas tiveram alojamento e alimentação em espaços e estruturas de outras instituições, como as já citadas. Hotéis podem participar com alojamentos especiais, para convidados de mais renome, que valorizarão esse apoio. O mesmo pode ser negociado com algum comércio ou indústria locais (para fornecimento de insumos: desde alimentos até papelaria, computadores, etc). Não há que esquecer ou desistir das instituições estaduais e federais – secretarias, ministério – que serão, contudo, tanto mais inclinadas a dar algum apoio quanto maiores ou mais importantes forem as parcerias já estabelecidas.
Os itens aqui mencionados – alojamento, alimentação, instalações diversas, transporte local e logística do evento – são os mais essenciais para a organização de uma Jornada, considerando-se a base quantitativa que também adiantei: de 200 a 500 pessoas. Não há como saber inicialmente o número definitivo – que só será “fechado” idealmente 2 meses antes do evento, e ainda assim, apenas prospectivamente, pois sempre haverá inscrições de última hora, que devem ser atendidas desde que possível. A negociação inicial, portanto, deverá prever essa flexibilidade (e até maior, se a resistência a este governo atual ou seu eventual sucessor fortalecer muito a militância cineclubista). Uma espécie de check-list destes e outros aspectos é o ponto de partida do cineclube que quiser se propor a organizar uma Jornada. A mesma checagem deverá ser feita pela Reunião, inversamente, para verificar a viabilidade da proposta.

6.     Duração e organização: Especialmente numa conjuntura de retomada e reorganização, a Jornada deve ter uma duração suficiente para promover o entrosamento dos participantes, assegurando a realização de discussões amplas sobre todos os temas estabelecidos – que não serão poucos. A jornada tem uma tradicional divisão em Grupos de Trabalho temáticos – que permitem a participação mais direta de cada membro de cada entidade e possivelmente um maior aprofundamento das questões – e Assembléia, geralmente dividida em algumas plenárias (pelo menos duas: a de abertura e deliberação de programa e temário e a de deliberação final e encerramento – que pode, ainda, incluir eventuais processos eleitorais), quando se realizam as deliberações do conjunto dos participantes, discutindo e votando as proposições dos grupos de trabalho, as formuladas diretamente no debate em plenária e moções diversas, além dos eventuais processos eleitorais. Historicamente, a maioria das Jornadas teve duração de 5 dias, suficiente para assegurar a grande experiência coletiva que ela representa para os cineclubistas e, concomitantemente, permitir o debate franco e profundo indispensável para o avanço do movimento. De fato, com o enfraquecimento do movimento, as Jornadas foram ficando mais espaçadas (antes eram anuais) e mais curtas, cada vez mais concentradas no mero processo eleitoral. A Jornada deve ser o mais aberta possível, acolher o maior número possível de pessoas – esta é uma das suas características mais essenciais.

7.    Transporte: As instalações da Jornada devem ser centralizadas em um ou poucos espaços e, neste caso, eles devem ser próximos. Isso definirá a necessidade, ou não, de transporte local, item que faz parte das atribuições da Jornada.
O transporte dos participantes a partir de suas cidades é responsabilidade deles. Evidentemente, várias pessoas de um ou mais cineclubes podem se organizar para conseguir melhores custos de transporte. Também podem reivindicar apoios privados ou públicos. Em estados ou regiões onde existem federações de cineclubes, estas podem fazer essas tratativas ainda com mais força, especialmente junto aos poderes públicos.

8.    Participantes na Jornada (qualificação): Esta é uma questão fundamental. Da qualificação das entidades participantes depende a lisura, representatividade e democracia das deliberações que podem levar a uma sólida organização nacional - mesmo que não seja pela imediata constituição de uma entidade representativa nacional, mas pelo estabelecimento de um programa de trabalho, por exemplo – decisões que só cabem a uma ampla assembleia de cineclubes claramente identificados.
Há muitas entidades, trabalhos, práticas congêneres do cineclubismo. Numa época de uma certa crise deste último e sobretudo de mudanças significativas nas formas participativas ou sem fins lucrativos de relação entre a produção audiovisual e os públicos, há que se preservar e mesmo promover o diálogo, as ações e reivindicações comuns possíveis entre os cineclubes e as entidades congêneres, definindo e preservando suas diferenças em função mesmo do estabelecimento de ações comuns. Assim, estas últimas também devem ser chamadas para a assembleia nacional dos cineclubes, mas qualificadas em separado. A diferenciação assegura a identidade de cada atividade, ao mesmo tempo que estabelece bases claras e seguras para uma colaboração produtiva. Há ainda outras categorias de participantes que é importante definir. Todas as condições que elenco a seguir estão nos estatutos do CNC que vigoraram até 2010 e foram observadas em todas as 20 Jornadas realizadas entre 1974 (quando o CNC passou a reunir cineclubes, antes era um conselho de federações regionais) e 2010.

8.1   Cineclubes: Participação plena, com direito a voto (um voto por cineclube). A Jornada não deve estabelecer limite de participação aos membros de cada cineclube. A Jornada não é um procedimento (meramente) eleitoral, ainda que implique em várias deliberações. Ela é sobretudo uma ocasião de congraçamento e de intercâmbio, tradicionalmente se organizando em grupos de trabalho e outras formas de atividade que até recomendam a presença de mais integrantes de cada cineclube. Para os cineclubistas, individualmente, constitui uma experiência única e muito marcante, geralmente fundamental na consolidação da sua adesão ao movimento. A dificuldade de transporte já faz uma triagem severa na capacidade de participação. Só em casos excepcionais deve se estabelecer um limite (tão elevado quanto possível) ao número de participantes por cineclube.
Os cineclubes devem constituir-se como associações abertas, democráticas e sem fins lucrativos; sua direção e o conteúdo das diferentes atividades deve ser controlada pelos associados. Isto não implica necessariamente registro legal, mas a demonstração de que a estrutura e gestão são do conhecimento e têm o aval da comunidade em que o cineclube atua;
A direção dos cineclubes, independente de sua construção formal, deve ser sujeita a avaliação, controle e escrutínio periódico pelos associados ou pela comunidade em que se insere. Para comprovar os elementos referentes à organização, os cineclubes devem apresentar estatutos, regimentos, declarações de associados ou frequentadores, além das atas de eleição ou outras provas de renovação de sua direção a critério da Comissão Organizadora, com recurso ao plenário da Jornada (plenário este constituído pelos cineclubes reconhecidos até a votação do dito recurso);
Os cineclubes devem ter entre suas atividades a projeção periódica e sistemática de filmes e/ou outros materiais audiovisuais com intervalos de, no máximo, um mês;
Para participação plena os cineclubes deverão demonstrar sua existência há pelo menos 6 (seis) meses anteriormente à reunião. Para comprovar sua atividade, os cineclubes devem apresentar material publicado na imprensa, cartazes, folhetos, divulgação na internet ou outros, verificáveis a critério da Comissão Organizadora, que comprovem tanto a antiguidade mínima quanto a sistematicidade de seu trabalho;

8.2     Cineclubes em formação: os cineclubes que não tiverem ou não puderem comprovar todos os elementos acima (pouco tempo de existência, itens ainda a organizar, etc.) serão considerados em processo de formação; poderão participar de todas as atividades da Jornada com direito a voz, mas sem direito a voto.

8.3     Entidades congêneres: as entidades de exibição audiovisual cultural ou educativa, sem finalidade lucrativa – mas que não se constituem como organizações associativas e democráticas – terão acesso a todas as atividades da Jornada, com direito a voz, mas sem direito a voto. Sugestão minha: em assuntos, temas, reivindicações e deliberações de interesse comum (legislação para atividade sem fins lucrativos, por exemplo), essas entidades poderão manifestar sua adesão às decisões, que assim ficarão fortalecidas e de representatividade mais abrangente. Também poderão propor observações complementares às decisões, quando estas não as incluírem, desde que não acarretem prejuízo aos cineclubes;

8.4     Convidados – Personalidades ou instituições convidados pela Comissão Organizadora, ou por sugestão oriunda das discussões abertas preparatórias e adotadas pela Comissão, terão pleno acesso a todas as atividades da Jornada, com direito a voz, mas sem direito a voto.

8.5               Observadores - Qualquer instituição ou pessoa que queira participar de todo o Encontro sem ser parte das categorias anteriores. Devem pagar o custo integral de sua participação e não têm direito de voto.

Nota: Caso o número de inscrições exceda a capacidade de acolhida, a prioridade deve ser a ordem estabelecida acima, com exceção da categoria dos convidados. Vale também a observação já feita sobre o estabelecimento de limite de número dos participantes de cada cineclube.

          Não sou muito otimista quanto ao resultado deste texto, pelo menos de imediato. Provavelmente não haverá nenhum encontro, dada a fraqueza desse CNC, mas também é possível que se consiga reproduzir o que descrevi no início deste texto, o que será inócuo, senão nocivo mesmo, para o movimento cineclubista brasileiro.

De qualquer forma, como sempre faço, não me abstenho e procuro fazer uma crítica séria e uma contribuição construtiva. Este e os demais textos aqui citados poderão um dia, possivelmente, ser aproveitados pelos cineclubistas que queiram refletir sobre nossa prática e nossa história.

Em Montreal, setembro de 2017





[i] Trata-se do “Volta Juca”, campanha orquestrada com a presença do interessado, Juca Ferreira (ministro extamente no período aqui mencionado – 2008-2010), e homenagens diversas com vistas à sua manutenção no primeiro governo Dilma Roussef, que começaria um mês depois. Nunca antes a entidade mundial havia sido instrumentalizada nesse nível. Na mesma assembleia da FICC foi eleito presidente o brasileiro Antonio Claudino de Jesus.
[ii] Digo “em sua maioria” porque também ocorria a sobreposição de financiamentos, com algumas entidades e/ou pessoas acumulando subvenções de diferentes editais, prêmios, etc., federais e, em alguns casos estaduais, o que acabava por totalizar somas importantes.
[iii] Metas do Plano Nacional de Cultura, do Ministério da Cultura, dezembro de 2011 (quando as atividades já estavam paradas há mais de um ano). Disponível em http://www.cultura.gov.br/documents/10883/11294/METAS_PNC_final.pdf/
[iv] Na história do cineclubismo brasileiro há outros exemplos que podemos associar a esse processo: a distribuição maciça de projetores 16 mm no programa anticomunista norte-americano Aliança para o Progresso (1961-1970), que acabaram sendo muito usados posteriormente, na resistência à ditadura, ou mesmo a rápida falência dos cineclubes católicos com a retirada do apoio efetivo da Igreja Romana, no início dos anos 60.
[v] Ver nota vii adiante.
[vi] Pelo menos França e Itália têm mais de uma federação nacional de cineclubes.
[vii] Em 2010, a representação da Bahia propôs a realização da Jornada seguinte em seu estado, sem qualquer condição assegurada. Mesmo assim a proposta foi aprovada. Essa – e a ausência de controle por parte da diretoria do CNC, responsável final pela realização do evento - foi a principal razão para que a Jornada seguinte, com seu corolário de eleições, etc., não se realizasse no devido tempo. A insistência, também sem fundamento, da mesma representação, em que “logo” se conseguiriam os recursos necessários, explica o adiamento por mais um ano e meio – até meados de 2013 – e a organização improvisada e sem representatividade da “Jornada”, finalmente, em Vitória (ES), com um número bem reduzido de pessoas/entidades, praticamente coincidindo com o número de cargos a serem preenchidos.

domingo, 28 de maio de 2017

Diretas já : ditadura e democracia formal

            Cá estamos nós outra vez. Entre o primeiro semestre de 1983 e 25 de abril de 1984, os brasileiros saíram às ruas numa campanha que nos mobilizou como nunca em nossa história - desconfio bastante da avaliação da Folha de São Paulo, que calculou “cientificamente” a passeata contra Dilma Roussef, em 2016, como a maior da história. Eram as “Diretas já!”. Naquele 25 de abril foi votada a emenda constitucional que estabelecia as eleiçãoes diretas, não aprovada por não atingir os dois terços do Congressso dos apaniguados do regime autoritário. Não foi uma derrota, certamente. A campanha culminava, de certa forma, um longo processo de resistência à ditadura e de construção de uma sociedade civil com instituições ancoradas nos movimentos populares, nos bairros, no campo e nos sindicatos, e também na enorme massa do que então ainda chamavam de minorias: mulheres, negros, movimentos identitários de gênero, etc. A “derrota” na votação antecedeu de alguns meses a eleição (indireta) de Tancredo Neves e, sucessivamente, o processo de elaboração da Constituição de 1988 e as eleições finalmente diretas de 1989. Evidentemente, a Assembleia Constituinte e seu produto imediato foram e são bem mais importantes que as eleições na formação do processo democrático no nosso País.

       De uma certa maneira, o estabelecimento de uma ordem democrática pela Constituição chamada de “cidadã”, contraditoriamente, marcou o início de lentos mas progressivos enfraquecimento e desestruturação da mesma sociedade civil que atingira o que parecia para muitos ser seu maior objetivo. Principalmente os governos FHC e do PT, com estilos e linguagens diferentes, promoveram a erosão das bases representativas e coletivas das instituições populares, estimulando o empreendedorismo e as “boas formas de gestão” e/ou a cooptação e atrelamento ao Estado, no que alguns autores denominam “onguização” das organizações populares.

        Boa parte do que se costuma identificar como uma polarização na sociedade brasileira  de hoje vem desse empobrecimento da sociedade civil e de sua partidarização em um bloco que não consegue expressar efetivamente os interesses mais gerais das massas de trabalhadores e excluídos. Por isso as manifestações marcadas exclusiva ou majoritariamente por bandeiras partidárias, de seus conhecidos e estreitos aliados, e de organizações que constituem extensões das mesmas, têm sido quase sempre – e sobretudo nas ocasiões mais importantes – minoritárias em comparação com as mobilizações dos setores médios e de sentido reacionário.

          O horizonte opaco e sem alternativas que se apresenta depois da destruição da “coalizão” populista e da derrubada do governo petista tem agora uma – e apenas uma – saída, e esta é, justamente, novamente, a das eleições diretas. Misteriosas maquinações envolvem todas as instituições republicanas: executivo, legislativo e judiciário – com a participação nebulosa dos oligopólios da imprensa e do “entretenimento” (também diferentes “linguagens” ou dispositivos a serviço dos mesmos fins), e das organizações corporativas e patronais. A manipulação dos acontecimentos visa claramente a manutenção, extensão e aprofundamento das “reformas”, isto é, a eliminação dos direitos do trabalho e das políticas públicas sociais. E para que tal processo continue é necessário que ele se dê no espaço controlado por essas forças, o Congresso. Eleições indiretas com a “manutenção das reformas”, isto é, o retrocesso brutal, e a preparação de eleições em 2018 (ou, quem sabe, um pouco mais tarde...) de forma a reinstituir um equilíbrio formalmente democrático sob a hegemonia dessas forças que procuram não se identificar mas que são claramente as do capital financeiro e internacional.

              Uma campanha pelas eleições diretas já é a única alternativa em que esse poder de manipulação se vê enfraquecido, o único processo que ele é incapaz de controlar inteiramente. As mobilizações deste domingo, 28 de maio (especialmente no Rio de Janeiro, que foram convocadas de maneira ampla – escrevo isto antes de saber seu resultado e repersussão), mostrarão se estamos sendo capazes de reunir o sentimento da maioria sem estreitas bandeiras partidárias, se somos capazes de construir uma unidade avassaladora que sacuda essa classe política corrompida até em sua carne. Se a manifestação no Rio for ampla e grande (que aqui não são sinônimos), como nas primeiras diretas já, de 1984, provocarão um efeito de adesão crescente e uma “competição” saudável entre as cidades para ver quem faz a maior concentração ou passeata. A repetição da Greve Geral, numa avaliação muito cuidadosa (Greve Geral não é brincadeira e fazê-la sem uma boa preparação só leva ao desgaste dessa forma de manifestação e luta), não pode ser excluída da evolução dos acontecimentos.

            Como disse Churchil: “Agora não é o fim. Não é nem o começo do fim. Mas é, talvez, o fim do começo.” Esta campanha é o marco. A votação, no Congresso, das emendas que preveem eleiçoes diretas pode muito possivelmente redundar na repetição do fatídico 25 de abril de 1984. Na edição de hoje, o jornal Folha de São Paulo ameaça: as maiores bancadas partidárias pretendem votar a favor de eleições indiretas; elas têm 397 deputados e 72 senadores, respectivamente 77% da Câmara e 89% do Senado. E, como sabemos e já experimentamos historicamente, a classe política não se intimida nem se peja de votar contra a vontade popular.

              Ao contrário de enfraquecer nossa disposição de ir decisiva e unitariamente às ruas para nos manifestarmos, esse argumento mostra que, ainda que não resulte em eleições diretas neste difícil quadro institucional entre um governo falido e um prazo limitado para as eleições regulares, as diretas já podem, devem ser um estímulo fundamental para a reorganização do povo em torno de instituições que o fortaleçam e representem. É uma flexão de músculos, um exercício de organização que, com qualquer resultado, deve propiciar outras formas, sobretudo as permanentes, as instituições poppulares. Além disso, certamente contribuirá para a saída desse medíocre usurpador chamado Michel Temer.

               A lição da história, de fato, mostrou que o objetivo final não pode ser a ordem democrática formal, com eleições determinadas pelo poder econômico, mas o estabelecimento de uma democracia muito mais radical e uma justiça social real e concreta, muito para além da “redistribuição” limitada da riqueza produzida pela maioria mas usurpada por uma minoria ávida, corrupta e implacável.

              Diretas já! Mas também sindicatos renovados e conselhos de trabalhadores nas fábricas e empresas; ações cooperativas, organizações de auto-defesa, educacionais e culturais no campo; associações de moradores nos bairros; organizações politicas e culturais de mulheres, de grupos étnicos, de gênero. E, em toda parte, clubes e associações esportivas e culturais: cineclubes, grupos de teatro, de dança, clubes de escrita e criação, e muito mais. Só assim podemos construir, desde já, o corpo de instituições populares que nos permitirão atingir e manter uma sociedade efetivamente democrática e justa.

Felipe Macedo
28 de maio de 2017


sábado, 3 de dezembro de 2016



Quando vejo organizações nacionais ou encontros representativos de cineclubes se manifestarem “em defesa do cinema de autor” ou de um “cinema de qualidade” percebo que muitos cineclubistas ainda não realizaram em toda a sua extensão o que representa o público, e sua relação com o cineclube e o cineclubismo. Essas expressões entre aspas estão presas a concepções estéticas elitistas originadas no impressionismo francês dos anos vinte e superadas pela última vez ao final do ciclo da Nouvelle Vague. Ou se prendem a uma postura essencialista e paternalista ancorada na noção do “bom cinema” do espectador cristão, falecida pouco depois. A autoria, como categoria ontológica, nada mais é que uma justificação filosófica para a propriedade privada econômica, ou moral, como fator de prestígio social.
Assim, muito sucinta e esquematicamente, resolvi escrever este pequeno artigo, um estímulo e uma provocação à reflexão sobre o cineclubismo nestes tempos de revolução técnica, antesala do caos ou da Revolução.

O Cinema do Público

Nos anos 70, à medida que crescia o movimento cineclubista comprometido com a resistência à ditadura militar, e que deitava raízes nos movimentos sociais e meios populares, surgiu a percepção de que os cineclubes eram uma forma de organização do público, resultantes da expressão de suas necessidades, de seus interesses e do fato de que o cinema comercial não atendia esses objetivos, pelo menos para além da sua própria dependência da produção de lucro.

Compreender o cineclube como uma organização do público representou uma ruptura com a concepção dominante de cineclube como uma instituição voltada ao culto do cinema. Isso aconteceu um pouco em toda parte, sobretudo no terceiro mundo, e muito especialmente na América Latina. Mas talvez o cineclubismo brasileiro, que atingiu naquele período um nível muito avançado de organização, tenha sido o que mais claramente demonstrava essa concepção e prática, e que começou a sistematizá-la como teoria. Na Itália, talvez pela influência do pensamento gramsciano – e, de fato, coincidentemente na Sardenha – também se teorizava, na mesma época, sobre a primazia do público sobre o cinema na organização do cineclubismo. Precocemente desaparecidos, Fabio Masala e Filippo de Sanctis não podem ser esquecidos por todos que se interessem pela história dos cineclubes.

Como dissemos, isso aconteceu um pouco em toda parte, demonstrando que a verdadeira característica do cineclubismo aflora sempre que consegue superar a barreira ideológica do elitismo e das instituições culturais conservadoras que o relegam a um papel de culto alienado ao cinema. De fato, o cineclubismo nasceu claramente como uma instituição de resistência ao cinema de dominação e exploração que se consolidaria a partir da segunda década do século passado, sendo depois igualmente enquadrado e “institucionalizado” em grande parte.

O público é o autor

Ironicamente, foi em grande medida nos cineclubes da década de vinte que se desenvolveu a noção do autor individual como criador, responsável e proprietário das obras cinematográficas. Ideias que atingiram seu auge ainda num ambiente cineclubista, o da Nouvelle Vague dos anos cinquenta.

No entanto, as obras de arte são o produto de um processo cultural permanente e ininterrupto, fruto de um diálogo social em que todas as partes contribuem. Mesmo quando é possível se identificar um autor individual e original de uma obra – o que não é nem tão óbvio nem tão comum quanto se pensa -, ele está expressando um momento desse diálogo. O sentido final da obra é dado – também numa relação permanente, e em permanente mutação – na recepção, pelo diálogo social, nos termos em que o descreveu Bakhtin[i]. O consumo é produtivo. As abstrações dualistas emissor-receptor, autor-espectador, não existem na realidade: esta é uma espiral multidirecional que se modifica o tempo todo na história. A categoria permanente nesse diálogo é o público, do qual fazem parte os autores formais ou percebidos, seja qual for a medida e intensidade de seu envolvimento. O público é o autor social do sentido da arte numa luta ideológica ininterrupta pela apropriação desse sentido.

Cinema do capital e cinema do público

Como  o nome já diz, no sistema capitalista o capital organiza as forças produtivas assegurando-se da apropriação de seus resultados. O sistema funciona adequando todo produto e toda forma de produção à realização do lucro. E descartando, eliminando ou relegando a uma posição marginal o que não se adéqua. A história do cinema constitui um bom exemplo. Inúmeras invenções e processos foram sendo selecionados com base em sua adequação ao mercado, à capacidade e possibilidade de organizar esse trabalho para dar lucro. Até a metade da segunda década do século vinte esse foi um processo de várias vias e não poucos conflitos, que – muiito simplificadamente – acabaram com a prevalência, a hegemonia do cinema dito clássico, hollywoodiano. Outras alternativas foram abandonadas, perseguidas ou marginalizadas. Mas, entre as sobreviventes, continuou o processo permanente de tentativa de apropriação pelo capital.

De uma forma esquemática, existe um cinema do capital, voltado primordialmente para a produção de lucro, e outras práticas e instituições cinematográficas que, mais ou menos alijadas do sistema capitalista, se organizam sobretudo em torno do seu valor de uso[ii] para seu público, em detrimento de seu valor de mercado. Podemos falar assim, genericamente, de um cinema do capital e de um cinema do público. Cada um deles constitui abstratamente uma matriz geradora de instituições que diversificam e concretizam as formas de apropriação social do cinema (ou do audiovisual em geral).

Instituições do cinema dominante e instituições do público

O período chamado de institucionalização do cinema é geralmente situado entre 1905, com o surgimento dos nickelodeons ou salas fixas, e algum momento, menos preciso, na segunda metade de década de 1910, quando se consolidam as principais ou básicas formas de linguagem, de produção, circulação e recepção do cinema. Esse período – que chamamos em outros textos de a batalha do nickelodeon – foi justamente um conflito, ou uma série de conflitos interligados, entre as tentativas de imposição de modelos pelo capital e a resistência dos públicos, culminando no estabelecimento de um resultado composto mas essencialmente adequado à produção máxima do lucro. Esse cinema hegemônico é constituído de uma série de instituições – de linguagem, estilo, formas de consumo, etc – que continuam a serem criadas até hoje.

Entre elas podemos citar a forma literária linear da narrativa, a montagem transparente, a maioria dos gêneros cinematográficos, o sistema de astros e estrelas, as diferentes formas arquitetônicas (dos palácios aos multiplexes) de organização da recepção, e muitas outras.

Já do lado do público, resultado da resistência mais ou menos consciente ou organizada, diversas práticas e instituições marginalizadas experimentam diferentes trajetórias. A mais paradigmática – mais antiga e generalizada – de que se originam diversas outras, são os cineclubes. Mas também as cinematecas, os festivais de cinema, uma parte da crítica, os estudos universitários de cinema. Várias formas de produção e de estéticas de representação também evoluem fora ou em diferentes níveis de marginalidade em relação ao cinema comercial: a estas podemos chamar de cinemas do público. Evidentemente, são também apropriadas e agregadas aos mercados em alguma medida, conforme o caso. Ou são adotadas e protegidas pelo Estado, na atribuição clássica deste, de evitar o conflito. Mas, sem produzir lucro, sua dinâmica experimenta uma margem variável de autonomia em relação ao capital.

Os cinemas do público

Não apenas excluídos dos mercados, mas igualmente desconsiderados – pelo menos até muito recentemente – pela maioria das instituições sociais, como a imprensa e a universidade, a teoria e a história do cinema, essas formas são denominadas sempre em alguma medida pela sua excepcionalidade em relação ao modelo hegemônico (e, não raro, de forma pejorativa): cinema amador, cinema de família, cinema experimental, cinema científico, cinema de vanguarda, cinema operário, cinema negro, cinema feminista, cinema LGBT. Mas também, em grande medida, o cinema documentário, e até mesmos os cinemas nacionais, sobretudo nos países “não produtores” ou onde a produção não encontra mercado ou não consegue se industrializar em alguma medida.

Essas classificações, obviamente, são mais ideológicas que qualquer coisa. Os estudos de cinema estão hoje tentando incorporar essas práticas em uma teoria mais geral do cinema, já que a existente foi claramente abalada pela diversificação do universo audiovisual. No plano sócio-econômico vivemos outra batalha, que podíamos chamar de batalha das redes sociais, ou da apropriação dos espaços virtuais – políticos, econômicos, ideológicos, estéticos.

Estes “cinemas” têm todos uma relação muito próxima com os movimentos cineclubistas seus contemporâneos ou conterrâneos – e nem sempre de harmonia. A revolução audiovisual em andamento, além de reposicionar essas práticas e instituições, está criando novas, e todas elas são indispensáveis para a criação de um projeto de cineclubismo que pretenda se ajustar aos novos tempos e continuar a exercer um papel de organização representativa do público no campo do audiovisual.

Felipe Macedo – dezembro 2016




[i] Mikhail Bakhtin (Volochinov), Marxismo e filosofia da linguagem. Capítulos 1, 2 e 3. São Paulo: HUCITEC Editora
[ii] Karl Marx O Capital Crítica da Economia Política Livro Primeiro: O processo de produção do capital. Primeira Seção: Mercadoria e dinheiro Primeiro capítulo.  A mercadoria. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1867/capital/livro1/cap01/01.htm

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Corrupção

Como problema ético, a corrupção fica na fronteira da psicologia e da cultura, do indivíduo e do coletivo. Acredito que o primeiro, o sujeito tomado isoladamente, se molda de forma autônoma no caldo de cultura do ambiente social. Todos têm escolha, mas o bandido pobre é impulsionado pela necessidade; o assaltante rico, pela oportunidade. A corrupção é uma forma de roubo, também pode ser compreendida como a apropriação privada - individual ou organizada – de bens ou direitos coletivos. Resquício de formas primitivas de sobrevivência, ela se incorpora de diversas formas e em diferentes níveis nas culturas das nações e, até certo ponto, da Humanidade.

Numa simplificação esquemática – como se requer nestas redes privadas mas ditas sociais – podemos citar o exemplo da incorporação à moralidade institucional dos países mais desenvolvidos economicamente dos salários e benefícios tidos como aceitáveis para executivos, na ordem dos milhões, dezenas e até centenas de milhões (em qualquer moeda forte) anuais e sua tributação diferenciada. Nativos desses mesmos países se chocam com os hábitos de propinas de 1, 2, 10 dólares necessários a cada passo de uma demanda burocrática – liberar um produto na alfândega, obter um certificado ou autorização – ou de pequenos serviços, em certos países da África, por exemplo.

No Brasil reunimos o pior desses dois mundos. Herdeiros do Estado patrimonial deixado pelos portugueses (ou até pelos visigodos e romanos, como dizia Raymundo Faoro), com predominância de estamentos produtores e controladores de uma gigantesca burocracia, vivemos num paraíso de regras e dificuldades que apelam para soluções “inventivas” e jeitinhos extracurriculares. A enormidade de cargos públicos[i], o volume de regras extensas e gongóricas, a extrema hierarquização e morosidade do controle juciário, aliados a um éthos de privilégios e exceções elitistas, introduz aquela pequena corrupção como fator de igualdade e até de sobrevivência entre a massa de excluídos do sistema produtivo dominante, e a adapta para os escalões da burocracia estatal, nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Ao mesmo tempo, o restante da classe dominante – na indústra, no agronegócio, nas finanças – dispõe e usufrui, ainda que em escala proporcional à sua própria grandeza relativa, dos dispositivos de desigualdade de padrão desenvolvido. Ou bônus sem ônus.

Toda corrupção é nociva mas, evidentemente, os milhões de dólares pagos como salário e bônus ao executivo de uma grande corporação ou como propina para o deputado, prefeito ou ministro (entre outros) têm um peso social muito diferente dos 10 ou 20 reais dados ao flanelinha que se apropria do espaço público ou do trocado entregue ao vendedor de balas, provavelmente roubadas, no sinal fechado. Quantias enormes subtraídas direta ou indiretamente do patrimônio público pesam realmente nos orçamentos sociais: tiram dinheiro dos investimentos em transporte, defesa, educação, de tudo um pouco. Ou um pouco mais que um pouco. No caso da saúde, por exemplo, o dinheiro ou a falta dele representam vacinas, remédios, tratamentos. Pessoas morrem ou ficam inabilitadas por toda a vida por causa dos fluxos invisíveis desses recursos. Na China existe a pena de morte para os crimes contra a economia popular. No Brasil, tal como o inconsequente maconheiro ou o ocasional consumidor de cocaína não sentem nenhuma responsabilidade sobre o estabelecimento do poder do crime organizado nas comunidades populares, na “criação de empregos” no tráfego e no crime em geral para crianças e adolescentes mais pobres, os políticos, empresários, autoridades judiciais e religiosas também parecem – ou aparentam – não ver relação entre as nebulosas operações financeiras e políticas de que participam e as incontáveis mazelas que afligem nosso País. Não, essa corrupção “de rico” é realmente um crime muito grave.

Qualquer cidadão minimamento informado – e não são tantos assim - sabe que a quase totalidade dos partidos nacionais com representação parlamentar é corrupta, nos termos acima descritos. Mais que isso, a corrupção é a razão principal da existência de muitos partidos – em número, a maioria das siglas – que existem apenas para receber recursos públicos e negociar votos e espaços midiáticos, também públicos. Os partidos mais à esquerda foram, durante muito tempo, exceção a essa “regra”, mas muitos perderam essa característica já lá se vão muitos anos. Para parlamentares evangélicos, qualquer ação se justifica por estar ao serviço do Senhor (como ateu, essa ideia é para mim um mistério: será um deus qualquer ou aquele senhor que manda na igreja?), para alguns mais à esquerda, a moralidade estaria nos altos desígnios sociais que sua organização – e eventulamente sua generosa pessoa – são as únicas a poder assegurar. Para a maioria, em todos os casos, é mesmo uma picaretagem, tipo uma sujeirinha que deve ir para debaixo do tapete. PT, PMDB, PSDB, PSD, PP, PR, PSB, PTB, DEM, PRB – para citar, em ordem decrescente, apenas as dez maiores bancadas da Câmara federal – estão todos igualmente imersos nessa cultura de corrupção[ii].

Na China, muitos desses deputados seriam fuzilados – e isso estaria de acordo com a consciência cívica que por lá se promove, diante, inclusive, de um grau elevado de corrupção, em parte beneficiado pela opacidade do governo e por outros atavismos culturais. Os brasileiros somos mais tranquilos quanto a isso, aqui só executamos corruptos (e mesmo alguns desafetos) em sonho ou na internet. A corrupção é percebida socialmente – e promovida pelos poderosos, muitos deles corruptos - como falta menor. Assim, o tratamento da corrupção em termos políticos e mediáticos tem sempre sido relativizado, abrandado, abafado – agora também por grande parte da esquerda. Mas em certas ocasiões, acontece o contrário. Os governos e instituições com presença ou influência progressista são atacados justamente pelos focos centrais da corrupção por... corrupção. A pecha da corrupção é das mais produtivas calúnias: mesmo – ou especialmente no caso de – não haver provas, ela se insinua e cola no difamado, de forma parecida com as insinuações sobre sexualidade perversa. O ato de denunciar já funciona como demonstração: “onde há fumaça, há fogo”. Virou um fator meio clássico na desestabilização política e social no Brasil. Essa era a marca da UDN, partido conservador que existiu entre 1945 e o Golpe Militar de 1964, de que foi a principal base político-institucional. O PMDB – e toda uma coorte de políticos indiciados e condenados de outros partidos – reinterpreta a farsa da UDN meio século depois. E, para distrair o público de seus próprios crimes, apresenta os do PT (com quem aqueles mesmos políticos articularam e prevaricaram à farta) como únicos e especialmente danosos.

A manobra é diabólica, audaciosa, impudente mesmo. E brilhante, diante da posição em que coloca os setores progressistas da população brasileira. A traição dos antigos aliados do PT na corrupção se traveste de movimento ético-político para justificar o aniquilamento do ex-aliado e legitimar o ataque inédito aos direitos sociais. Se não formos capazes de uma mobilização que esclareça essa situação, é bem provável que o plano golpista dê certo. Mas boa parte dos setores mais organizados da oposição ao golpe estão ou foram ligados ao governo derrubado e não conseguem superar essa ligação. A relativa injustiça (por ele ser tomado como bode expiatório) que se comete contra o grande líder desse segmento, Lula, obriga seus antigos apoiadores a defendê-lo como centro da questão política – e, dessa forma, a estreitarem a base de resistência ao golpe, confundindo os interesses e direitos da maioria da popúlação com o projeto político partidário que a maioria da população não apóia. Confundem PT e direitos sociais, Lula e democracia. Mobilizam a rua não contra o golpe e as classes dominantes corrompidas até a medula, mas são obrigados, até certo ponto, a fazê-lo sob as bandeiras do PT e de setores a ele ligados, empunhando imagens de Lula e Dilma, o que confunde e impede uma mobilização mais ampla e sobretudo mais eficaz. É a chamada sinuca de bico.

Lula deve ser defendido na Justiça e nos foros político-institucionais com todo o vigor de que dispuserem seus partidários, mas a luta política mais geral tem que se concentrar na realização de eleições o mais breve possível, como expressão da recusa enfática pelos brasileiros de um governo ilegítimo e de um programa político que assalta o País não mais sob a forma de mutretas corruptas, mas como projeto institucional de ampliação e aprofundamento da exploração da maioria da população.




[i] O Brasil tem 23.579 cargos públicos em comissão, comparados a 8 mil nos EUA, 4 mil na França, 600 no Chile, 500 na Alemanha, 300 na Inglaterra (Revista Veja, 19, nov., 2011, disponíevl em(http://veja.abril.com.br/brasil/brasil-tem-23-579-cargos-de-confianca-o-triplo-dos-eua/ . Nossa Constituição tem 28 anos, 250 artigos, com 93 emendas constitucionais; a estadunidense tem 227 anos, 7 artigos e 27 emendas. A lei que regulamenta os contratos do governo federal tem 282 páginas na versão impressa pelo Tribunal de Contas do DF:
(http://www.tc.df.gov.br/c/document_library/get_file?uuid=475ad4d0-5a80-4701-9bba-5cd0b1ed4075&groupId=657810 . O tempo médio de tramitação de um processo de execução fiscal é de 8 anos, 2 meses e 9 dias apenas na Justiça Federal de Primeiro Grau: (http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/110331_comunicadoipea83.pdf)